DIGITALAB PARTILHA PROCESSO CRIATIVO DO NOVO ADN GRÁFICO DO COLETIVO 284.

Brimet Silva ( Director Criativo ) e Mariana Resende ( Directora de arte) do atelier DIGITALAB partilham a essência do processo criativo  que define a nova identidade corporativa do COLETIVO 284.

A DIGITALAB é um atelier holístico que opera nas áreas da arquitectura, design e tecnologia. Partilhem connosco a génese da vossa colaboração com o COLETIVO 284.

B. O nosso atelier tem uma estrutura baseada nos princípios basilares da escola de Bauhaus de Gropius e na ULM de Max Bill. Existe um profundo culto do experimentalismo ( Learning by doing ), como sparks para a criação, criatividade e inovação. A exploração digital realizado pelo Casey Reas e Ben Fry com o processing são também grande influências no nosso workflow. O nosso modus operandi direciona-nos para um processo gerador de múltiplas formas e soluções, em detrimento de uma solução per si concebida como elemento a priori. É uma criatividade baseada em processos paramétricos e algoritmos ( generative design) que nos permite criar gramáticas da forma responsivas e adaptativas. O designer italiano Achile Castiglioni tem uma frase que cultivamos no atelier “If you are not curious, for get it”. Esta ideia de estar sistematicamente à procura de pontos de tensão e convergência é muito desafiante. A contribuição da Mariana no desenvolvimento deste projecto trouxe uma dicotomia Analógico- Digital particularmente interessante que nos posiciona numa fronteira criativa ( in between), e isso é deveras estimulante. A colaboração com o COLETIVO 284  foi baseada num grande respeito e admiração pelo projecto, pela filosofia e pelos criadores. Ainda se encontra numa fase inicial, no entanto o projecto tem um enorme potencial de crescimento. Quando o Paulo e a Adriana nos convidaram para assumir a direcção artística percebemos que haveria uma oportunidade interessante de explorar novas linguagens gráficas em prol da cultura e do conhecimento humano.

M. O COLETIVO surge de uma forma muito leve e simples. Num belo dia, com o Verão a começar, o Brimet diz precisar conversar comigo. “Eu sei que estamos cheios de trabalho e que não era suposto aceitarmos novos projectos, mas…” e ouço falar pela primeira vez no COLETIVO 284. E sinto o entusiasmo. E é-me aguçada a curiosidade. É-nos proposto desenhar uma nova ID que ajude a estruturar o conceito em expansão do projecto, que comunique Design. “Só podemos dizer sim se puder contar contigo.” Àquele brilho nos olhos característico do criativo, que sente o Design como cultura partilhada centrada na experiência humana, que se entusiasma e vê potencial em tudo o que nos atira para fora da nossa zona de conforto, representa novidade e consequente evolução, só podia dizer sim. Sendo que a proposta surge num momento em que sentimos ‘in house‘ haver potencial para assumir o design gráfico como um novo ‘branch‘ do atelier, avançar fazia sentido.

Quais são as bases conceptuais e gráficas que pautaram o processo de criação da nova identidade corporativa do COLETIVO 284.

B. O processo criativo foi muito interessante. Herdamos o logo do atelier Cusca Design , e a partir desse input  fomos desenvolvendo um conceito paramétrico com múltiplas variáveis baseadas em formas simples: quadrados, triângulos, rectângulos e circunferências. Citando Nadir Afonso – “A geometria é uma coisa maravilhosa”. Existe uma clara influência do suprematismo de Kazimir Malevich e abstracção de Kandisnky, articulado com as  as dinâmicas gráficas dos Tangrans chineses, numa simbiose com o processo digital que explora muitas das bases teóricas computacionais do Casey Reas Generative Graphic design.

M. O COLETIVO 284 já tinha um logótipo que não seria alterado. Agradou-nos a ideia de explorar estudos que defendem que tudo pode ser desenhado com três formas elementares – Cézanne -, de mergulhar na equação triângulo-quadrado-círculo da Bauhaus que defende a associação de marcas gráficas lineares a experiências não gráficas, e de aprofundar o dicionário visual Bauhausiano que se baseia na existência de elementos e relações elementares à percepção humana (e que introduz a grid que está tão presente na génese de qualquer processo gráfico da DIGITALAB) – Klee e Kandinsky.  Desconstruir e reinterpretar o logo, elevá-lo enquanto gramática visual e associá-lo a um conceito generativo e adaptativo, era o desafio.

Uma das características nevrálgicas que define o ADN da DIGITALAB é a vertente generativa. Expliquem um pouco melhor a importância dessa atitude tão experimentalista  no desenvolvimento do processo criativo, e como é que se isso se reflecte na linguagem gráfica adoptada.

B. Eu e a Mariana não queríamos desenvolver uma identidade estanque. Analisamos cuidadosamente o que Sagmeister&Walsh tinham realizado para a casa da música, a identidade gráfica que o Eduardo Aires tinha desenvolvido para o Porto, e o processo criativo da nova identidade gráfica do MIT desenvolvido pelos Pentragram. O que une todas estas abordagens é o conceito de gramática da forma. Todos eles criaram um conjunto de regras gráficas (scripts) que tornaram a linguagem visual adaptável a uma série de  parâmetros, cores, formas, rotação e translação. A nossa ideia foi criar um algoritmo (Visual Shappe Grammar), capaz de criar uma série de combinações geométricas heterogéneas que definem todos os elementos gráficos micro e macros (pictogramas, posters, estacionário, website, activação da marca) etc. Em suma criámos um sistema de design associativo baseado em premissas analógicas e digitais. 

M. Trazer o design generativo para o design gráfico sabe-nos a certo, e fazendo parte do que é já o ADN e consequente mindset do atelier, torna-se um processo natural. Generativo significa criar. E o convite constante ao experimentalismo que anda no ‘in between‘ entre o analógico e o digital, eleva qualquer processo criativo. Ao pensar um conceito sabemos, sem esforço na intenção, que a determinado momento fará sentido torná-lo paramétrico. Ao explorarmos o potencial das ferramentas digitais, potenciamos o conceito. No fundo, o que pretendemos é agilizar o ‘form finding‘ para chegarmos a ‘n’ possibilidades a que seria humanamente e em timings realistas impossível chegar. Depois do conceito obtido analogicamente, com brainstormings e recortes de cartolina, foi criado o script que opera num sistema dinâmico recursivo baseado em iterações gráficas (we’re definitely in between). Cada iteração opera de modo independente e associativo. A magia acontece, o conceito ganha forma, e a riqueza visual com que avançamos no processo é incrível e estimulante. Encaramos a ID desenvolvida para o COLETIVO 284 como um exercício de experimentação que se prolonga no tempo. Sentimos o conceito como tendo enorme potencial experimental e como estando em constante loop evolutivo. Isso agrada-nos.

Percebendo essa abordagem paramétrica no desenvolvimento da linguagem visual, como é que se faz a ponte entre algo tão experimental e que simultaneamente tem que comunicar com público de forma eficiente.

B. Esse é o momento de tensão que existe sempre entre a criatividade/abstracção e o choque da realidade. Graficamente tem que ser apelativo, tem que comunicar e passar uma mensagem, uma emoção. Existe o tempo que é o principal parâmetro do nosso conceito. Não é apenas o tempo de execução, mas sim o da comunicação. O público vai assistir a crescimento e adaptação de uma identidade corporativa. A mutação é um factor essencial. Há muito de Lavoisier e Darwin na nossa abordagem generativa, o que nos permitiu criar uma identidade evolutiva em constante mutação. “The best is yet to come“. 

M. É desafiante. Mais do que comunicar com o público de forma eficiente, a questão que se coloca é para quem estamos a comunicar. O público para quem o COLETIVO 284 comunica é muito heterogéneo e abrangente, sendo que o público para quem a DIGITALAB – enquanto atelier criativo – comunica está identificado e preenche uma pequena parcela desse bolo. Dissociamos-nos do cunho comercial focando esforços no processo de design, é o que nos faz sentido considerando a que é a nossa visão para o atelier, no entanto o COLETIVO 284 tem uma vertente comercial que é inegável. O equilíbrio entre o que nos faz vibrar e a necessidade do cliente tem levado a muitos momentos de reflexão e aprendizagem. É importante manter um espírito de abertura. Até porque A evolução passa também por aí. Acreditamos ser possível ter o melhor dos dois mundos a coabitar.

Como antecipam a evolução da identidade gráfica generativa em articulação estratégica com o crescimento cultural e económico do COLETIVO 284. 

B. Será um crescimento articulado. Toda a comunicação é transversal e multi-plataforma. Para nós foi uma vitória ter criado uma linguagem gráfica que se adapta a dicotomia analógico-digital e as suas derivações práticas no site, booklet, estacionário, etc… Está tudo interligado, o que viabilizará uma adaptação rápida ao crescimento orgânico do COLETIVO 284.